Diário encontrado na Curva da Estrada
Diário encontrado na Curva da Estrada
Registro 1
Nunca fui muito de
escrever, mas depois do que aconteceu, sinto que preciso colocar tudo no papel.
Talvez seja uma maneira de manter minha sanidade intacta — ou de deixar um
aviso, para quem encontrar isso. Se é que alguém vai encontrar.
Meu nome é Rafael Torres.
Tenho 34 anos. Trabalho com manutenção de sistemas em indústrias e, por isso,
viajo o tempo todo. Sempre preferi trajetos menores, estradas esquecidas, rotas
alternativas que me poupassem do trânsito pesado. Era uma terça-feira quando
resolvi cortar caminho pela Rodovia dos Cedros. Um trajeto antigo, esquecido
por muitos. As árvores ladeavam o asfalto como uma procissão de sombras. A
neblina era espessa, quase sólida. O rádio morreu, o celular também. Não havia
mais mundo ali fora — só a estrada, a neblina, e eu.
Eu a vi na curva. Uma
casa grande, velha, torta de tão antiga. Todas as janelas abertas, as luzes
acesas. No meio da chuva fina e da escuridão, ela parecia viva, como se
respirasse. Eu deveria ter seguido em frente. Mas algo — uma coisa mais forte
que o medo ou a lógica — me fez estacionar. Saí do carro com os faróis ainda
acesos e fiquei parado, sentindo a água fria pingar da aba do meu boné.
Foi quando vi a menina.
Um vestido branco sujo de barro, cabelos longos, negros, grudados no rosto
pálido. Ela me olhava da varanda, imóvel como uma pintura. Eu a chamei, tentei
perguntar se precisava de ajuda, mas ela apenas virou-se lentamente e entrou na
casa. Meu corpo se moveu sozinho. Subi os degraus da varanda. Empurrei a porta.
Entrei.
Registro 2
Dentro da casa, o tempo
não parecia certo. Era como se o ar estivesse mais espesso, o tique-taque
invisível de um relógio partido. Todas as lâmpadas acesas lançavam uma luz
amarelada que parecia não aquecer, apenas mostrar a podridão das paredes
descascadas, o pó que se erguia em nuvens a cada passo.
Eu a vi outra vez, no
topo da escada. Me encarava com olhos tão fundos que pareciam buracos. Seus
lábios se mexeram sem som, mas eu ouvi, dentro da minha cabeça: “Eles estão no
porão.” Um arrepio subiu pela minha espinha. Tentei dizer a mim mesmo que era
só uma criança perdida, mas a parte mais primitiva do meu cérebro já sabia:
aquilo não era humano.
Subi, chamando por ela,
mas ela desaparecia de canto de olho. O corredor do andar superior era
revestido de retratos antigos. Em um deles, vi o rosto dela — mais jovem, viva,
mas ainda com aquela tristeza imensa no olhar. Amélia, dizia a plaquinha. 1874.
Entrei no quarto onde ela
se escondeu. Era um cômodo infantil abandonado. Ursos de pelúcia sem olhos,
cavalinhos de madeira quebrados. No centro, uma boneca horrível, o rosto
estourado, vazios os encaixes dos olhos. Havia uma pequena portinhola aberta na
parede. Do outro lado, degraus de pedra que desciam para o porão.
Respirei fundo e desci.
Registro 3
O porão parecia uma outra
casa dentro da casa. O ar era úmido, fétido. As paredes, manchadas de algo que
parecia ferrugem ou sangue seco. E o silêncio — meu Deus, o silêncio — era tão
pesado que eu ouvia o próprio sangue pulsar nos ouvidos.
E então começaram os
sussurros. Primeiro distantes, como vozes carregadas pelo vento. Depois, mais
claros, quase familiares:
— Você não devia ter
parado.
— Agora é tarde.
— Ela precisa de você.
Procurei a escada para
subir, mas só encontrei parede sólida. Não havia mais volta. Algo se movia na
escuridão. Não sei descrever o que era. Sombras se retorcendo, membros
deformados tentando me alcançar. Senti mãos geladas roçando minha pele. Corri
em círculos, tropeçando, gritando por ajuda.
Foi quando a vi de novo.
Amélia.
Flutuava acima do chão do porão, como se não pertencesse àquele lugar — ou
pertencesse a ele de uma maneira ainda pior. Seu vestido agora parecia parte
dela, como pele. Seus olhos sangravam lágrimas negras. Ela estendeu a mão e
falou dentro da minha cabeça:
— Você entrou na casa.
Agora a casa entrou em você.
Então tudo apagou.
Registro 4
Acordei no banco do
motorista. Motor ligado, faróis acesos. O céu começava a clarear. Por um
segundo, pensei que havia sonhado. Mas no banco ao lado, repousava a boneca. A
mesma. Sem olhos.
Segui viagem sem olhar
para trás. A estrada parecia normal, mas o relógio marcava 4h44 da manhã. No
meu telefone, a data era 29 de abril de 2025. Só que... eu sabia que quando
entrei na estrada era 26 de abril. Perdi dois dias.
Pesquisei. Ninguém
conhecia mais a Rodovia dos Cedros. Nos registros, ela havia sido desativada
depois de uma série de desaparecimentos, incêndios inexplicáveis, surtos de
loucura entre motoristas.
Fui até o cartório da
cidade mais próxima. Contei minha história. Mostrei a boneca. O atendente, um
homem já idoso, empalideceu. Disse que o coronel Moura morava ali em meados do
século XIX, e que sua filha, Amélia, desaparecera misteriosamente após um incêndio
que consumiu toda a fazenda e as redondezas. O que sobrou foi enterrado. A
estrada foi construída sobre as ruínas.
A menina nunca foi
encontrada.
Registro 5
Desde aquele dia, algo
está errado comigo.
Vejo coisas pelo canto do
olho. Escuto sussurros à noite. E cada vez que durmo, sonho com corredores
intermináveis, cheios de portas que se abrem sozinhas, levando sempre ao mesmo
lugar: um porão, cada vez maior, mais profundo.
Sinto que a casa está
crescendo dentro de mim.
Cada lembrança ruim, cada momento de tristeza, parece abrir espaço para ela
construir mais um cômodo.
Tentei me livrar da
boneca. Queimei, enterrei, joguei em rios. Mas ela sempre volta, suja, fedendo
a podridão. Sempre no meu carro. Sempre no banco do passageiro.
Hoje, quando olhei no
espelho retrovisor, não vi apenas a estrada.
Vi a varanda da casa.
E a menina de branco,
acenando lentamente para mim.
Registro final
Se você encontrou este
diário, por favor, não vá para a estrada da neblina.
Não estacione na curva.
Não entre na casa.
Porque se você entrar…
Você nunca mais sairá inteiro.
E a casa vai se alimentar
do que restar de você.
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| Imagem feita por IA |
(o diário termina aqui,
manchado com algo que parece mofo e marcas de mãos infantis)
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